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Livros Um
Mal (Dito) Cidadão Domiciano José Ribeiro Siqueira, 48 anos, pai de uma filha, Bárbara, um filho Gabriel e de dois netos, João Vitor e Beatriz, é um jovem senhor de cabelos compridos, escorridos sobre as costas. Tem o perfil de quem não passa desapercebido dos olhares das mulheres. Nem da polícia, principalmente da polícia, e especialmente nos aeroportos. Se os policiais ouvissem sua história, ficariam atrapalhados. Que homem é este que não usa nem carrega drogas -mas que já usou e já carregou- e que hoje é um militante pela defesa da vida dos dependentes e usuários da mesma droga que consumiu? Entre aqueles que defende, alguns fazem parte de sua própria família. Depois de anos de militância e aprendizado, muita gente hoje defende a tese de que dependentes devem ser tratados como alguém que precisa de cuidados, não de polícia. E sabem que para não morrer de Aids, sífilis, hepatites ou outras infecções, precisam de informação e de insumos. Insumos, aqui, significam seringas novas , de forma que não se contaminem com o HIV, preservativos e cachimbos que possam protegê-los quando usam crack e machucam os lábios. E informações para que evitem overdoses e não sejam pegos pela polícia ou virem reféns dos traficantes. Especialmente para os mais jovens, cair nas mãos da polícia provoca mais danos que a própria droga. Essa estratégia, praticada há anos nos países mais desenvolvidos, foi batizada de redução de danos. Se não há como evitar o uso da droga, e que seu abandono pode levar anos, que ao menos o dependente sobreviva aos riscos que o ameaçam. A maioria dos que pregam essa estratégia está nos gabinetes das instituições públicas, o que garante um respaldo e uma credibilidade indispensáveis para essas políticas. Vale lembrar o nome de pioneiros liderados por David Capistrano, entre outros, que ainda no final dos 80, em Santos, desafiaram a Justiça, o Ministério Público e o preconceito da sociedade. A diferença entre eles e o autor desse livro, é que Domiciano fez parte, e ainda faz, do grupo de pessoas que leva a tese dos escritórios para o campo. Campo aqui significam as bocadas, os lugares ermos, matagais, banheiros de bares sujos, construções abandonadas onde nem a polícia entra. Domiciano entrava, e ainda entra, com o respeito de quem já esteve afundado nesse universo e que é visto como aliado num meio onde estranhos são sempre olhados como ameaça. Fez isso em diversas cidades, onde o uso de droga injetável é mais intenso. Deu e continua dando lições a aliados que compreenderam e defendem sua tese de redução de danos. Na esteira de seu trabalho, foram surgindo grupos que passaram a trabalhar com troca de seringas, distribuindo preservativos e informações, levando os usuários a se aproximarem das instituições de saúde. Convenceu os dependentes a não temerem a polícia. Fazia parte do trabalho de Domiciano mostrar às chefias de polícia locais que os dependentes eram pessoas que precisavam de ajuda, não de algemas, pancadas e discriminação. Sem nenhum curso superior, fundou e presidiu por 5 anos a ABORDA – Associação Brasileira de Redutores de Danos - . Hoje, a estratégia é apoiada no Brasil por instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde, órgãos da ONU, além do Ministério da Saúde e mesmo o CDC, o Centro de Controle de Doenças dos EUA, que banca projetos de redução de danos em vários pontos do país. Como repórter, estive com Domiciano em várias de suas ações, especialmente em Porto Alegre, onde, na época, dirigia o programa de redução de danos. Sua chegada nas "bocas" mais miseráveis, onde dependentes já abatidos pela Aids não levantavam mais da cama, era saudada como um aliado e “salvador”. Com ele, os pacientes tinham coragem de se aproximar dos postos de saúde e receberem os cuidados mínimos. De muitas formas, Domiciano desafiou a ordem vigente, ainda timidamente defendida nos gabinetes de parlamentares e técnicos da saúde que pregavam a redução de danos. A troca de seringas entre presidiários, por exemplo, que só agora começa a ser discutida e implantada, já era praticada por ele nas formas mais camufladas. Nas palestras que fazia nos presídios de Porto Alegre, ele não se limitava a alertar para os riscos do uso da mesma seringa. Em algum ponto conhecido dos presidiários, sempre deixava uma caixa com seringas novas e hipoclorito de sódio para que fossem desinfetadas. O número de vidas que Domiciano salvou, e que ensinou a salvar, certamente nunca será contabilizado. Seu livro, com a participação de vários colaboradores, é apenas um esboço tênue do que ele fez pela causa da Aids, das hepatites, da tuberculose e, especialmente, pela dignidade nas relações entre as pessoas. Aureliano Aureliano Biancarelli, 54 anos, é repórter da Folha de S.Paulo e acompanha os trabalhos de prevenção à Aids e redução de danos desde o início dos anos 90 |
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