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O professor e a prevenção
ao uso abusivo de drogas na escola
Marcelo Sodelli
Quando escrevemos sobre a questão
do uso abusivo de drogas na escola, sempre corremos alguns riscos
inevitáveis de sermos considerados muito conservadores ou
muito liberais. Isso é um fato importante para começarmos
a compreender a problemática do uso abusivo de drogas na
escola. Ou seja, de que lado você está? Do mocinho
(que nunca usa droga) ou do bandido? Historicamente, a questão
das drogas vem sendo compreendida de uma maneira dualista, o Bem
e o Mal, o certo e o errado. A partir desse conceito, os programas
de prevenção priorizam a abstinência total
ao uso de drogas, o que hoje é representado pelo “Diga
não às drogas”. Assim, esse tipo de programa
preventivo pretende, em última análise, “informar
e formar” pessoas para que nunca experimentem qualquer tipo
de drogas.
Olhando por esse prisma, fica fácil entender porque tantos
educadores apoiam e trabalham com esse tipo de programa, afinal,
que educador defenderia e acreditaria nos benefícios do
uso de drogas? Entretanto, nestes últimos anos, pesquisas
sobre o uso abusivo de drogas na adolescência revelam um
fato de maior importância. Os projetos que priorizam a abstinência
total ao uso de drogas não conseguem alcançar seu
maior objetivo: fazer com que os jovens não experimentem
as drogas. O que vem sendo apontado como um dos grandes problemas
desse tipo de projeto é justamente o que está em
sua base: a simplicidade da concepção dualista (o
Bem e o Mal, o certo e o errado). Pretendo desenvolver algumas
idéias para compreendermos melhor esse fato e, por fim,
apontar possíveis caminhos para uma tarefa preventiva na
escola.
•
O uso de drogas x o uso abusivo de drogas
Em primeiro lugar, é importante repensar alguns conceitos
que podem nos auxiliar a esclarecer certos enganos. Diversas vezes
nos referimos a elas, mas o que são as drogas? Existem diversas
definições sobre o que sejam as drogas, usaremos
aqui o conceito utilizado pela Organização Mundial
de Saúde (OMS): drogas são substâncias que
provocam algum tipo de alteração no sistema nervoso
central. Assim, devemos entender que quando falamos em drogas,
estamos nos referindo às ilícitas (proibidas) como
a maconha, o lança-perfume, a cocaína, o crack etc.
e às drogas lícitas (liberadas) como o álcool,
o tabaco, a cafeína e os remédios (antidepressivos,
reguladores de apetite, anabolizantes etc.).
Outro esclarecimento pertinente é sobre a grande diferença
entre a prevenção ao uso de drogas e o abuso delas.
Quando o trabalho preventivo é em relação
ao uso de drogas, o objetivo principal é que o jovem sequer
experimente. Ou seja, a idéia é fazer, por exemplo,
que, nas festas, os jovens nunca experimentem álcool. Por
outro lado, o trabalho preventivo ao abuso de drogas tem uma outra
estratégia: o que se pretende é educar o jovem a
não fazer uso abusivo de uma droga, como, por exemplo, ficar
embriagado numa festa. A diferença entre essas duas posturas
preventivas está no fato de que a primeira não leva
em consideração a realidade vivida pelo jovem, enquanto
a outra trabalha com essa realidade.
O trabalho preventivo ao uso abusivo de drogas considera o fato
de que o jovem está sujeito a experimentar e usar uma droga
eventualmente, e dessa maneira, o trabalho preventivo está em
educar as pessoas a fazer o uso com moderação e responsabilidade.
Isso nos leva a outra questão importante: será que
isto é possível?
•
O conceito de porta de entrada
Todos nós já ouvimos falar de que o uso de uma droga,
por exemplo, a maconha ou o álcool, é porta de entrada
para outras drogas ditas piores (crack, heroína etc.). Esse
conceito afirma que quando uma pessoa experimenta ou usa eventualmente
drogas, teria muito mais chances de vir a ser um dependente químico
do que outra pessoa que nunca experimentou ou usou drogas.
Entretanto, se fôssemos analisar qual é a droga que
vem sendo utilizada pelos jovens de maneira mais significativa,
sem dúvida o álcool seria eleito. Mas por que será que
a mídia geralmente direciona as notícias para os
problemas relacionados às outras drogas e não para
a questão do álcool?
•
A mídia e as drogas
Discutir o poder da mídia é uma tarefa bastante
complexa. Sabemos que sua força é enorme e que influencia
de maneira significativa o modo como podemos compreender um problema.
E de que maneira a mídia vem apresentando a questão
das drogas em nossa sociedade? A grande maioria dos noticiários
de televisão trata a questão de maneira alarmista
e sensacionalista. É interessante notar que casos isolados
de uso de drogas são destacados e generalizados sem nenhum
cuidado e, por outro lado, pouco se fala sobre a questão
do uso e abuso do álcool. Obviamente um dos principais motivos
disso está vinculado aos interesses econômicos. É fácil
perceber o quanto seria economicamente prejudicial para a televisão
discutir a prevenção ao abuso do álcool, já que
a indústria do álcool é uma das maiores fontes
de renda em propaganda.
Ainda existe um outro ponto a ser analisado. Os meios de comunicação
reproduzem e legitimam o discurso neoliberal, que afirma que o
fracasso e o sucesso de uma pessoa está exclusivamente em
suas próprias mãos. Com base nisso, o uso ou não
de uma droga é de total responsabilidade da pessoa; se ela
ficar dependente é porque não teve competência
ou maturidade para lidar com o problema. Devemos perceber também
o interesse do discurso neoliberal ao tratar a questão das
drogas como o “grande mal da nossa sociedade”. Assim,
a disseminação do uso de drogas em nossa sociedade é a
maior responsável por todas as mazelas do nosso mundo atual
(violência, pobreza, falta de perspectiva do jovem etc.).
• As dificuldades no trabalho preventivo
do professor
Diante de toda essa discussão é de se esperar que
o professor apresente receio de trabalhar a prevenção
ao uso abusivo de drogas na escola. Esse receio compreende desde
uma questão prática, não saber como de fato
trabalhar a prevenção com os alunos, até o
medo de sofrer alguma violência física, por exemplo,
ser ameaçado por algum traficante.
Outro ponto importante: alguns professores acreditam que o trabalho
preventivo deveria ser realizado por profissionais especializados
e que não estão preparados nem são os mais
indicados para realizá-lo.
•
O sentido da prevenção ao uso abusivo de
drogas
Devemos considerar, em primeiro lugar, que um trabalho preventivo
ao uso abusivo de drogas deve estar pautado no conhecimento científico,
divulgando informações claras e corretas e diminuindo
o preconceito. Devemos considerar também que só o
repasse de informação para os jovens não é suficiente
para um bom trabalho preventivo.
Na verdade, um trabalho preventivo deve ter como objetivo fazer
com que o jovem pense e reflita de maneira crítica sobre
sua vida, suas escolhas, seus desejos, suas frustrações
e seu futuro. Então, um trabalho preventivo ao uso abusivo
de drogas deve romper com a visão simplista da mera proibição.
Devemos preparar os jovens para as suas futuras escolhas. Um bom
trabalho preventivo deverá englobar as maiores preocupações
dos adolescentes: a iniciação sexual, o uso de drogas,
a escolha profissional etc.
Ora, fica evidente que isso coincide com os planos pedagógicos
de qualquer escola, assim, o professor é o profissional
mais indicado para a tarefa preventiva. Vale lembrar que não
existe uma forma única de realizar um trabalho preventivo,
ou seja, podemos elaborar diversas atividades que contribuam para
a superação do receio do professor em realizar o
projeto preventivo. É possível, por exemplo, iniciar
um trabalho preventivo restrito ao uso abusivo do álcool.
Esse trabalho já seria importantíssimo se levarmos
em consideração que a droga mais consumida, tanto
na adolescência como na fase adulta, é o álcool.
Infelizmente, o tema drogas ainda é tabu em nossa sociedade.
Se nós, educadores, não nos esforçarmos em
discutir essa questão de forma aberta e sem preconceito,
ela vai continuar a ser um problema, por muito tempo.
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