|
[ Artigos
O papel essencial da
escola é despertar
no aluno o desejo de aprender
Claudia Maria Duran Melleti
Elma Elizabeth Arruda de Souza Gomes
Vânia
Carvalho Bueno de Souza
Sérgio sabe muito bem o que é "não dar
certo" na escola, depois de
algumas pelas quais passou. Sua queixa principal é que "não
tem o menor
interesse em aprender coisas". Depois de ter certeza de suas
muitas
dificuldades com a escola - com 15 anos já viveu muitas
situações
escolares recheadas de frustrações doloridas e sonhos
desfeitos -
aceita, um pouco relutante, reiniciar o processo escolar no Colégio
Graphein.
Na árdua tarefa de ajudá-lo neste começo,
nossa equipe percebeu o
quanto é difícil para ele estar no espaço
escolar. São muitas as
demonstrações de recusa, prefere ficar com os amigos
ou ficar solitário
em casa. A escola não faz parte dos planos de Sérgio,
mesmo assim,
alguns vínculos se estabelecem entre nós e ele, e
isto dá margem a
indagações importantes.
O que significa este "não interesse" em aprender?
O que seria "o
vazio" a que Sérgio se refere muitas vezes? Qual a
sensação que o
assaltava muitas vezes em situações escolares?
Por que parece estar bem na escola em alguns
momentos, e em outros acha
tão difícil estar lá? Por que sentir como
gigantescas exigências as
propostas rotineiras de atividades em sala de aula?
Então chegou um momento importante para Sérgio:
fazer perguntas e pensar
em hipóteses que poderiam ou não ser confirmadas.
Estava aberto um
espaço, iniciado com os vínculos estabelecidos, para
que partisse do
aluno a solução deste conflito.
Como profissionais ligados à educação,
podemos nos perguntar qual
postura adotar diante desta realidade - a "ausência" ou
o "mascaramento" do desejo de aprender - que vem se tornando freqüente
dentro do ambiente
escolar.
A escola é um dos lugares socialmente instituídos
para a criança se
inserir na cultura urbana, para que se relacione com o outro e
com o
conhecimento. É parte de uma dinâmica, onde o sujeito
organiza e
interpreta suas relações com o mundo interno e externo.
Sabemos, entretanto, que raras vezes a escola
compreende a totalidade do sujeito "aluno" e seu próprio papel na dinâmica,
pois tem como
pressuposto que todos os sujeitos chegam a ela ou permanecem nela
como
sujeitos com desejo de saber e sem problemas maiores. E assim deve
ser.
Nós entendemos de maneira diferente. Para nossa equipe, é parte
do
trabalho da escola contribuir para significar ou re-significar
o sujeito
no seu desejo de conhecer, que precisa ser prazeroso.
Sabendo que é da falta que advém o desejo, é importante
proporcionar
espaço para que dúvidas possam ser esclarecidas e
apareçam, então, a
curiosidade, as perguntas e, portanto, a movimentação
da energia
libidinal que pode levar à superação do conflito.
Para Sérgio a escola é um lugar
onde existe a impossibilidade de
sucesso. Na reflexão sobre estas certezas, contraditoriamente,
gerou-se
a dúvida, recuperou-se a falta. E a falta, agora, está gerando
a busca
de respostas, que, por sua vez, propõe novas perguntas.
Está se
estruturando um círculo produtivo. O aluno pode ir tecendo
significações e se re-significando enquanto sujeito
que pergunta,
sujeito que aprende.
O momento, hoje, para Sérgio, é compreender o seu
não desejar/desejar. O
papel da escola, para ele, é de dar condições
para que isto aconteça,
seguindo o movimento de sua energia e construindo com ele a descoberta
de suas motivações e de seus objetivos.
Um caminho imprevisível, mas de profundas descobertas para
Sérgio.À escola cabe acompanhar este
movimento e escutar o aluno, oferecendo a
ele as pistas que forem possíveis.
O percurso de Sérgio será único, porque é na
singularidade de cada
sujeito que se encontram as respostas (claro que provisórias,
de acordo
com cada momento) às perguntas.
E nós, no lugar de escola, somos um espaço possível
para a articulação
de seu desejo a um objetivo, reconstruído como objeto de
conhecimento.
|