|
[ Artigos
Inclusão Escolar:
do que se trata?
Por Renata Abbamonte
Há alguns anos trabalhando com inclusão
escolar de crianças com problemas no desenvolvimento, o
Projeto Incluir vem discutindo essa prática que cresce a
cada dia. A escola regular muitas vezes “inclui” um
aluno com necessidades educacionais especiais sem alguns cuidados,
em nome de uma lei que fala que todos têm direito à educação.
Colocar uma criança com graves problemas numa sala de aula
regular é algo a se fazer com cautela. Quando falamos em
inclusão escolar não se trata apenas de reunir impreterivelmente
os diferentes, proporcionando um ensino igual para todos, o que
leva, paradoxalmente a uma tentativa de normatizá-los para
que convivam numa mesma sala.
Incluir uma criança “diferente” na escola regular
significa proporcionar a todos os alunos o aprendizado de conviver
com a diversidade, sem anulá-la. Experiência esta
que faz parte de toda cultura, de qualquer sociedade. Isto quer
dizer o que? Que não é possível apagar as
diferenças, inclusive no que diz respeito ao aprendizado.
Portanto, a inclusão como imaginamos e idealizamos não é a
mesma que vemos na prática. Mas isso não é um
problema.
É importante lembrarmos que o processo de socialização pelo
qual todos vivenciam quando ingressam na sociedade passa por inclusões
e exclusões de grupos que naturalmente se formam, ou seja, acabamos por
nos reunir com nossos semelhantes, aqueles com os quais temos algo em comum.
E como conseqüência há uma tentativa de evitar o contato com
aqueles que consideramos muito diferentes de nós. O processo de socialização
vivenciado pela criança na escola é similar, ela une-se àqueles
que mais se afinam a ela, inclui ou é incluída num grupo, exclui
ou é excluída de outro. Quem não presenciou em sua própria
experiência escolar a formação de “panelinhas”,
ou mesmo o fato de um colega não ser escolhido para um jogo de futebol
por ser gordinho ou lento demais ou ainda o isolamento daquele que só pensa
em estudar, ou que é aparentemente “esquisito”?
A palavra Inclusão não significa promover a adequação
ou a normatização de acordo com as características de uma
maioria, seu significado está mais próximo à possibilidade
de fazer parte, conviver e não se igualar. Portanto, é com grande
cautela que devemos levantar a bandeira da inclusão escolar de crianças
com graves problemas de desenvolvimento. Ao invés de tomarmos o assunto
partindo de um ideal, do que diz a lei, é mais apropriado levar em consideração
a própria criança, verificar o problema que ela apresenta e a partir
daí avaliar a maneira de ingressá-la numa ou noutra sala de aula.
Ao ficarmos presos à premissa de que uma criança deve estar numa
sala de aula do ensino regular de qualquer maneira, a qualquer custo, perdemos
de vista o mais importante: a própria criança. Ao colocarmos uma
criança - principalmente quando se trata daquela que não consegue
responder por si própria - na escola, assumimos um compromisso com ela.
Qualquer discussão, por mais legítima que seja, não deve
desviar nossa atenção do foco principal - a criança a ser
incluída. Portanto, é preferível prorrogar um processo de
inclusão escolar numa escola ou classe do ensino regular do que realizá-lo
apenas em nome de uma lei. O termo Inclusão Escolar não se limita
a uma única ação. Há diversas maneiras de viabilizar
esse processo.
|