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Aspectos psíquicos do paciente com câncer

 pela psicóloga e psicanalista Claudia Ferrão (clauferrao@hotmail.com)

" Entendemos quando fazemos parte do que nos é dito" Martin Heidegger

Um pouco de história...

Desde a Antiguidade existem relatos de casos de câncer. No séc.V a.C., na Grécia, aparecem as primeiras descrições sistemáticas do câncer. É na escola de Hipócrates, o maior nome da medicina ocidental onde aparece a palavra karcinos, que quer dizer "caranguejo". Há duas teorias para origem deste nome: uma acredita que se relaciona às dores que causa a picada do animal e a outra pensa que o desenho dos vasos sanguíneos dilatados devido ao tumor, lembram as patas de um caranguejo.

Já no séc. XVIII nasce o conceito de metástase, que em grego quer dizer "mudança de lugar". O sangue e a linfa foram caracterizados como o meio através do qual a doença se disseminava. É este aspecto migratório que gera o sentimento de impotência frente à doença. Ainda neste período, o câncer era uma doença raramente diagnosticada. Quando se deparava com ela pouco se tinha a fazer, pois não se dispunha de qualquer tratamento para combatê-la. A palavra câncer era tão ameaçadora que o médico só revelava o diagnóstico aos familiares, e não ao paciente. O câncer estava associado à dor, à tumoração deformante e inevitavelmente à morte. No convívio social, ele era a doença a ser ocultada, pois gerava sentimentos de vergonha e medo.

Atualmente, com o advento da quimioterapia, mudou-se radicalmente o prognóstico de vários tumores. É através da combinação de cirurgia, radioterapia e quimioterapia, a depender do caso e do estágio em que se encontre a doença, que se atinge resultados positivos.

Hoje, o câncer é considerado uma doença crônica e absolutamente tratável e, em muitos casos pode ser curada, principalmente quando diagnosticada precocemente. Apesar disso, ainda é uma doença bastante estigmatizada, carregada de preconceitos e mistérios.


Quando se recebe o diagnóstico de câncer...

O diagnóstico tem a função simbólica da nomeação dos sintomas. Muitas vezes o paciente encontra-se angustiado por estar doente e não saber do quê. Neste sentido, ao saber o diagnóstico e o prognóstico da doença, ocorre uma suavização desta angústia, sendo de grande importância saber a verdade.

A forma como cada paciente reage ao diagnóstico de câncer depende de diversos fatores: do seu momento de vida, de suas experiências anteriores, das informações que recebeu no convívio social e do ambiente familiar e cultural em que nasceu e cresceu. É comum nos pacientes que recebem este diagnóstico, surgirem diversos sentimentos de difícil elaboração como: ansiedade, raiva, medo, angústia, culpa e depressão, os quais são permeados pela incerteza e insegurança de futuro.

A família do paciente também vivencia este momento com um sentimento de choque, incerteza e impotência. As famílias que já eram unidas renovam seus valores e tendem a unir-se para atender às necessidades imediatas, para elaborar a aceitação da doença e enfrentar as dúvidas quanto ao futuro incerto. Já as famílias mais vulneráveis costumam se fragmentar. As preocupações cotidianas com a saúde desmontan-se devido a um mal que parece vir de dentro, acarretando uma mistura de impotência e culpa. Aparecem aí as dúvidas que atribuem a doença aos descuidos e transgressões.

A partir do diagnóstico de câncer abre-se o caminho de um tratamento incerto, doloroso, prolongado, que marca o corpo, choca a família, muitas vezes afasta os amigos, fragiliza os planos de futuro e a possibilidade da morte fica iminente. Neste sentido, os pacientes se sentem expostos a uma doença assustadora e a um ambiente desconhecido e angustiante.

Desde pequenos sabemos que a morte existe, ouvimos dizer de um parente distante,nas estórias infantis, nas brincadeiras com os amigos, ou mesmo um animal de estimação. É muito difícil para o ser humano encarar de frente a própria morte, geralmente só falamos e pensamos na morte em fantasia, pois ela representa a separação, a finitude. Embora tenhamos a

consciência de que a morte é inevitável, não conseguimos acreditar nisto. Nós a colocamos então no futuro, no envelhecimento, na doença, no outro, mas nunca em nós mesmos.

A morte é caracterizada como um fracasso, como se a batalha contra o tempo pudesse ser vencida. A impotência diante da morte é inevitável e é frente ao diagnóstico de câncer que esta questão se coloca intensamente. É de forma individual que cada paciente vai vivenciar este momento.

No momento em que o sujeito está doente, fazer uma retrospectiva das alegrias e tristezas que teve ao longo de sua vida, não amenizam o seu sofrimento. Uma das principais interrogações que o sujeito se faz é: Por que eu? Nesta hora, o que é importante é poder falar e dar um sentido a tudo o que está acontecendo. É quando falamos de nossas angústias e sofrimentos que podemos elaborá-los. O que o paciente pensa sobre sua doença, e todos os sentimentos conseqüentes dela são muito importantes e tem que ser elaborados até para dar continuidade ao tratamento de forma mais ativa.

O tratamento...

Cada corpo pertence a um sujeito, sujeito este de uma história, de uma linguagem que modela suas ações e formas e tem algo a dizer sobre a sua doença, pode dar-lhe um sentido. É fundamental que possa falar de sua doença e de todos os sentimentos que ela e o tratamento acarretam. No momento do tratamento quimioterápico e radioterápico o doente é olhado, medido, ferido e manipulado, o que em geral, causa grande angústia.

No momento do tratamento, o paciente fica dependente dos outros, pois em geral apresenta algumas limitações físicas inerentes ao tratamento, não podendo desempenhar seu papel familiar e profissional usual. Esta dependência é associada aos efeitos colaterais da medicação como; náuseas, vômitos, perda de peso, fadiga, fraqueza, diminuição de libido e dependendo do tratamento, queda de cabelo. Além disso, a incerteza com relação à eficácia do tratamento está presente o tempo todo. Em muitos dos casos este conjunto de contingências gera sentimentos de depressão e ansiedade.


Quando o tratamento acaba...

A notícia do final do tratamento evoca no paciente sentimentos de ambiguidade, a felicidade vem junto com medo, tristeza e abandono. A doença vai parar de ser combatida, surgindo a lembrança de quem teve recidiva. Parece que a vida se esvazia do sentido que teve durante um longo período de tempo: o de combater o câncer.

Apesar do anúncio da cura o impacto do diagnóstico parece perdurar. Isto ocorre, pois existe o receio de que tenham restado células cancerígenas ou haja uma possível metástase. Uma história de câncer parece ter um enredo interminável, na medida em que o risco real da volta da doença soma-se às marcas ainda não cicatrizadas.

É Neste momento, que o paciente se depara com a volta as suas atividades familiares e profissionais anteriores. Renasce a hora de voltar a fazer planos e ter expectativas de futuro.

Desde a notícia do diagnóstico, até o final do tratamento aparecem muitos sentimentos e sensações. Caracteriza-se como uma fase de incessantes mudanças, incertezas, inseguranças e principalmente se deparar com o medo da morte. Falar sobre a morte não aumenta a ansiedade, mas sim diminui o isolamento e o medo, tornando a doença e seu tratamento menos aterrorizante.

Neste sentido, a escuta de um profissional se torna fundamental tanto para auxiliar o paciente na elaboração destes sentimentos, ouvir suas fantasias com relação ao surgimento da doença, como auxiliá-lo a participar ativamente de seu tratamento.

 

 

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